quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Perdi o sonho




Perdi o sonho. Dormi, sonhei e as imagens vieram muitas_ todas que eu precisava.
E eu perdi.

Porque quando eu acordei fui logo olhar o celular e essa merda desse vício me tirou os sonhos que eu tenho e que se espalham em mim querendo me minar de múltiplas-oníricas-coisas,
Mas aí eu fui lá e perdi.

Perdi o sonho
Perdi o tempo
Perdi a noite e o dia também.

Ana Gabriela Rebelo

sexta-feira, 15 de março de 2019

gosto ruim na boca




Eu tenho um sonho antigo que persiste como um gosto ruim na boca.

Era uma sopa, uma sopa de vinho. Mas o líquido em minha cuia era verde, um verde translúcido misturado ao arroz bem branco colado como pão_ talvez fosse pão. Talvez eu tivesse bem uns quatro ou cinco anos quando sonhei esse sonho que me fez acordar torcendo a boca na investida imediata contra aquilo que de alguma forma se mostrava como marca, agora não mais, inconsciente.

Algumas coisas posso dizer sobre isso, dos sonhos e dessas imagens que se cruzam e têm gosto, dor e cheiro próprios. Alguma coisa no meu caminho é certamente ligada de forma íntima à essa experiência do sonhar. Mas o que me chama atenção hoje, depois de mais de vinte anos desse acontecimento, é que possa eu ainda torcer a boca e sentir o gosto daquele sonho ao me deparar com qualquer bebida real que me lembre àquela da sopa de vinho verde.

Talvez a composição da matéria do sonho seja mais resistente que as fibras da matéria da carne. Talvez ainda, seja a carne, matéria mais onírica do que cotidianamente exercitamos constatar.

Eu tenho um gosto antigo que persiste como sonho ruim na boca.  

Ana Gabriela Rebelo _
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Sonho de 29 de Novembro de 2018




Rio de Janeiro, 29 de novembro de 2018

Sonhei que eu vivia em uma casa aonde circulavam muitos gatos. As portas, entradas e saídas da casa, davam para vários lugares diferentes. Uma delas era o acesso ao pátio comum entre os vizinhos, que recebiam esses gatos da cidade e cuidavam deixando a eles pequenos potes de comida e água, e acolhendo para que fossem ali suas casas também.

As figuras que circulavam pela casa eram muitas também, e havia ali algum movimento que era, com certeza, mais que um morar. Havia ali um fazer coisas para outras coisas que não fossem as próprias coisas_ e isso, definitivamente, não é morar. Um homem sobrenatural me perseguia.
Um gato cinza, pequeno e meio despenteado chegava à casa_ eu não tinha gatos. Decidi então que ficaria com aquele. Olhei para ele e tomando-o colo perguntei: “qual vai ser o nome do meu amor?” Então pensei “meu amor, oras! O nome dele é Meu Amor.” O Meu Amor estava com fome, então levei-o para dentro e pus-me a providenciar comida e leite até que o movimento da casa foi ficando mais tenso. 
Por uma outra porta tínhamos acesso ao mar, um enorme mar sem terra à vista, exceto umas rochas que ficavam a uma distância considerável de toda aquela cidade. A cidade em que vivia era uma espécie de cidade pós apocalíptica. O homem me perseguia. Os trânsitos pela casa iam formando uma tensão misteriosa. O Meu Amor sumia.
O homem era grande, cabeça, tronco, braços compridos, uma altura enorme_ era de fato uma figura sobrenatural. Eu sentia medo, e quando sentia medo, pegava a porta de saída para o enorme mar e partia voando por sobre as águas até que pudesse alcançar as enormes pedras cinza escuro. Eu entrava pelas pedras, a matéria do meu corpo se fundia nelas e mergulhava fundo até que pudesse com isso perder a forma humana que me continha e ser uma só com ela.

Ana Gabriela Rebelo
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terça-feira, 6 de novembro de 2018

As velhinhas


Os varais de roupas negras eram as velhinhas que se encontravam todas as tardes para contar de suas dores. Penso que tem dias em que sabemo-nos mais breves que outros. Mas são sempre os outros, os outros que nos tornam permanentes. Envelheci no corte.

_ A.G.R.
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018


Não nos afastemos_ poema de tempo presente

Acordei revirando os potes de biscoito
Despensa, fundos de gavetas
Geladeiras


Não me recordo de ter tido sonho algum
Acordei sem saber da hora exata
Porque hora de acordar é quando o corpo acorda
E com o corpo eu prefiro ser suave

Quase sempre eu lembro dos sonhos
Mas hoje não
Então hoje eu acordei de alguma coisa como uma noite sem sonhos
E fui revirar a casa
Sala vazia, cozinha, corredor
O quarto a meia luz com os lençóis amassados

Vesti uma blusa de manga longa que já quase não me coube mais
Faz frio lá fora e o tempo fechou
e parece que...
_ ou até mesmo_
não amanheceu
Quase sempre eu lembro dos meus sonhos
Mas hoje não
Então eu revirei gavetas
E cabides
Janelas
Potes de temperos pela cozinha
Cafés, números de telefones, álbuns antigos de música popular brasileira
Cadernos, cartas escritas a mão
Janelas para escrever cartas escritas a mão

Hoje eu acordei revirando as coisas
Tentando cavar um espaço
no silêncio escuro
que fez nesta noite em que eu não pude me lembrar dos meus sonhos
Mas eu sempre lembro dos sonhos! _quase sempre eu lembro dos sonhos...

Pensei que poderia escrever ontem mesmo
Mas ontem eu não pude_ tem dias que a gente não pode
Tem dia em que faz silêncio e é bom
Mas tem silêncio que faz o dia e aí não é bom
E ontem...
ontem eu dormi com esse silêncio de uma noite sem sonhos
E isso não é bom

Por isso hoje eu acordei revirando os potes de biscoito
Despensa, fundos de gavetas e geladeiras
Hoje eu acordei revirando palavra em sonho
Porque tem coisa que a gente não lembra e passa
Mas tem coisa de memória que a gente não vive sem

A minha existência sempre foi de corpo
E no meu corpo habitam as delicadezas
 As palavras, o coração
As febres, as doenças de enamoramentos
Os frisos, as dobras, as rachaduras e vozes
A fragilidade
As intermitências, modulações,
Nuances, estranhamentos, múltiplos sentidos

Então, hoje eu acordei revirando os potes de biscoito
Sapatos, despensa, fundos de gavetas
Estantes, geladeiras
  
Tá faltando poesia na despensa
E tem coisa que a gente não vive sem
Tá faltando coisa pra encher o pote
Tá faltando pele, tá faltando palavra
Pessoa, Caio, Clarice
 Freire, Manoel, Cora
Glauber, Chico, Boal
Patativa

O negócio é que tá com falta de gente que entenda Patativa
E por isso deve ser
Que eu acordei dessa noite sem sonhos
E resolvi continuar fazendo isso que eu sempre faço
Buscar palavras
Estranhar palavras
Revirar palavras
E grifar à mão livre essas coisas que são algo como que sonhos
 para que possamos botar dentro dos potes
E nos armários e fora deles também

Nas ruas, nas esquinas, nos sinais
Nas portas das casas, e nos pisos das varandas
Hoje eu acordei revirando as coisas
Para que nos nossos silêncios não nos faltem palavras
Para que nos próximos dias possam ainda haver coisas como sonhos
E ruas, e escolas
E versos e Pessoas e Drummonds e varandas
para que possamos permanecer de mãos dadas
e rexistir nas delicadezas
No tempo presente, na vida presente
não nos afastemos


A.G.R.











quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Tempo de encontros



Fico pensando no tempo q levamos para nos encontrar, na raridade dos encontros. Mergulhos e superfícies. Me angustia a imagem de um grande homem no fundo do mar, o corpo humano pequeno, macio, encharcado de água e sal diante do enorme gigante de pedra no fundo do mar. Fico pensando na raridade do tempo de encontros e na falta que isso faz.

Ana G.
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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

PIZZAS, aplicativos e telas nas janelas




Se o peixinho brilhar com LED e fizer barulhos digitalizados é porque você está no século XXI, isso significa também que o seu bichano orgânico é meramente opcional.
Quando eu era pequena, no início dos anos 90 na cidade do Rio de Janeiro, andava pelas ruas ao redor de casa puxando um pequeno cachorro de pano esganado com um cinto de couro pelo pescoço. No natal, escrevendo a carta ao senhor Noel, eu sempre pedia um cachorro de verdade, mas a mamãe dizia ao Noel que não podia me dar o cachorro. ─Por que? Porque cachorro suja, faz cocô, xixi, respira, solta pelo, pum e tem que passear e comer e tudo mais que daria muito trabalho a ela. Por isso ganhei uma tartaruga.

Se eu tivesse nascido depois seria mais fácil, ou então poderia ter nascido direto no Japão já que as tecnologias de lá estão a anos luz de distância da nossa vida orgânica. Os japoneses consomem animais robôs, humanos robôs e até mesmo os rabos robôs. Se você não sabe no que consiste um rabo robô, é porque precisa conhecer melhor outras pessoas e essa fabulosa invenção vai te ajudar nessa tarefa. Basta acoplar o charmoso acessório ao seu quadril e sair por aí, assim que você avistar uma pessoa que te agrada o rabo robô irá automaticamente abanar e assim seu crush saberá que pode se aproximar sem maiores riscos.

Se eu tivesse nascido hoje poderia recorrer a techno-bichinhos mais sofisticados que os tamagotchis, poderia ter uma foca bebê com saída USB que se move e respira mexendo sua pelugem quentinha enquanto dorme no meu colo. Quando era pequena já quis também ter cavalinhos e uma vez sonhei com dois pequeniníssimos elefantes que brincavam na minha sala. Até hoje gostaria que fossem reais, ainda que não tenha mais a vontade incontrolável de ter animais domésticos que me fazia estrangular bichos de pano pelas ruas.

Acho que hoje teria um gato, um gato e nada mais. Um bichano orgânico mesmo, porém moderninho_ que ele assistisse Netflix comigo, me incomodasse na hora do café e jogasse aplicativos no seu tablet, isso bastaria. O clássico moderno para gatos antenados é o caça peixes de LED, diversão garantida para uma bela farra de apartamento entelado. Mozão e relacionamentos sem rabos são negócios que andam mesmo muito arriscados, e talvez isso venha de um desarranjo estrutural de incompatibilidades entre sangue e Wireless. Ainda podemos sonhar e baixar aplicativos, netflix, popcorn, pôr telas nas janelas e pedir pizzas_  Acho que a modernidade é isso: + LEDS – riscos.


Ana LEDbriela